
















Primeiro foi o CLA atacar em força o segmento das berlinas eléctricas, ou não tivesse ele sido votado Carro Europeu do Ano em Janeiro, para agora a Mercedes-Benz atacar o mundo dos SUV com um portentoso GLC alimentado a electrões.
Seis meses após a estreia no salão automóvel de Munique, a insígnia germânica escolheu o Algarve para os ensaios internacionais, antes dos primeiros exemplares começarem a chegar aos concessionários.
Uma oportunidade única para o Aquela Máquina confirmar as qualidades deste familiar de luxo na zona de Albufeira, onde nem as estradas de montanha do barrocal algarvio impediram de tirar partido de todas as suas qualidades mecânicas.
Verdadeiro campeão de vendas no universo da Mercedes-Benz, o GLC com tecnologia EQ evoluiu por completo ao aderir à mobilidade de luxo 100% eléctrica.
Esta opção motriz não significa que a actual versão térmica esteja na porta de saída: ambas irão coexistir mesmo se entre elas sejam enormes as diferenças a separá-los que não se resumem ao combustível consumido.
Se a apresentação de perfil recorda o Mercedes-Benz EQC que irá substituir, são inúmeros os elementos que pede "emprestado" à berlina e à station wagon, como se percebe no pára-choques e nas ópticas frontais.
E depois é a maneira como reinterpreta a imponente grelha cromada que antes caracterizava os "clássicos" da insígnia germânica, "capaz" de equipar 942 pontos retroiluminados para receber o condutor com diferentes animações.
A estrela ao centro, assim como a moldura da grelha, também são iluminados, enquanto na traseira destaca-se uma larga barra preta a toda a largura para acolher os farolins com estrelas luminosas, como acontece no CLA eléctrico.
Apesar destas evoluções, mantém-se clássica a estética geral para não ferir as susceptibilidades dos adeptos das versões equipadas com motorizações térmicas.
Está igualmente bem maior do que o antecessor: são 4,85 metros de comprimento (+13 cm) por 1,91 de largura (+2 cm), com a altura a fixar-se nos mesmo 1,64 metros.
E depois são os 2,97 metros a separar os dois eixos a assegurarem um amplo espaço a bordo, ao ganhar mais 8 cm para beneficiar quem viaja atrás, somando-se os 570 da bagageira aos 128 litros que estão sob o capô.
Hiper tecnológico quanto baste, o habitáculo é definido pelo Hyperscreen de 39,1 polegadas em que actua o novo infoentretenimento MBUX com inteligência artificial.
Significa que o sistema é capaz de "aprender" e adaptar as preferências do condutor, sendo mesmo capaz de tomar decisões em tempo real se tal for necessário.
O ambiente tecnológico não descura a apresentação moderna e refinada a bordo, com materiais e acabamentos de qualidade, mas onde mal se vislumbram botões físicos para as funções mais comuns.
É certo que o volante multifunções abriga algumas teclas para os comandos mais comuns mas, se não usar o assistente vocal, será sempre necessário "navegar" pelo ecrã multimédia para grande parte das configurações.
Todavia, o fácil uso e compreensão das funções relacionadas com a gestão de energia, como o planeador de rotas e o pré-condicionamento da bateria, reflecte bem o cuidado e respeito que a Mercedes-Benz dedica à electrificação.
Falta de luz é o que não faltará a bordo, já que o GLC equipa de série um tejadilho panorâmico que pode comportar em opção um sistema segmentado de opacidade que até deixa projetar um "céu estrelado" na superfície envidraçada.
Primeira versão a chegar aos escaparates mundiais, o GLC 400 4MATIC foi alvo dum sofrido teste na Via do Infante que atravessa o Algarve, assim como nas nacionais montanhosas da região.
Uma boa maneira de perceber o que valem os 360 kW (489 cv) e 800 Nm debitados às quatro rodas pelos dois motores, com a bateria de 94 kWh, recarregável a 330 kW DC, a "prometer" até 713 quilómetros no Long Range Edition.
Equipado com uma transmissão de duas velocidades, em tudo semelhante à que equipa o CLA mas retrabalhada para suportar a maior potência do SUV, é impressionante como só demora 4,3 segundos a bater os zero aos 100 km/hora.
Foi apenas um pequeno ensaio para confirmar os números de fábrica e perceber que, se o SUV privilegia o conforto, nem por isso deixa de ter o seu "veneno" quando é preciso puxar mais pela mecânica num percurso mais complexo.
Uma mecânica ainda mais valorizada pela suspensão pneumática adaptativa, capaz de eliminar quase por completo os movimentos laterais da carroçaria, mesmo se "calçado" com pneus próprios para as jantes de 20 polegadas.
Saúda-se, por isso o excelente comportamento que mostrou no circuito escolhido para atacar as estradas de montanha, com as rodas traseiras direccionais a proporcionarem uma dinâmica de condução que vai mesmo para lá do habitual.
Esta solução tem igualmente um papel importante nas manobras em cidade face ao tamanho imponente que o SUV tem, e aos 2.500 quilos bem perceptíveis pelo condutor nas travagens mais apertadas.
Já em modo Sport apreciam-se as acelerações vigorosas e a boa sensação dada pelo ligeiro deslizamento da traseira, graças ao motor posterior mais responsivo.
Os quatro níveis da travagem regenerativa adaptativa, actuáveis através das patilhas no volante, são eficazes a controlar todo aquele peso, que se torna bem desagradável nas desacelerações bruscas quando se activa a regeneração mais forte.
Quanto a consumos, não se esperem maravilhas face aos números apresentados pela Mercedes-Benz, nem sequer era esse o objectivo neste ensaio em que se tentou "espremer" ao máximo os 489 cv deste GLC 400 4MATIC.
Se a média combinada é anunciada em redor dos 16 kWh/100 km, essa "combinação" cifrou-se para lá dos 22 kWh em auto-estrada a 120 km/hora, com o exagero a chegar aos 31 kWh/100 km a acelerar nas curvas da montanha.
Todavia, graças à plataforma MB.EA com arquitectura SDV e tensão de 800 volts em que é construído, é possível carregar o acumulador de 94 kWh de dez a 80% em 22 minutos, desde que seja num posto rápido de 330 kW em corrente contínua.
E, como acontece no CLA, a compatibilidade com estações de carregamento com arquitectura eléctrica de 400 volts será um opcional, embora o conversor esteja incluído de série, o que antes não acontecia com a berlina.
Equipado com assistentes ao condutor de última geração como se exige num premium, uma das particularidades mais úteis está no auxiliar ao estacionamento até 100 metros em marcha atrás.
Memorizada que foi essa distância, o sistema assume a direcção e exibe o trajecto que irá executar no ecrã multimédia a uma velocidade limitada a 8 km/hora, para depois entregar o controlo ao condutor após concluir a manobra.
Significa assim que este SUV não só é um bom familiar mas também um bom "eléctrico" pelo conforto e versatilidade que oferece, mesmo se é mais uma evolução do antecessor do que uma verdadeira revolução.
Com as reservas abertas desde Outubro, o Mercedes-Benz GLC 400 4MATIC é proposto a partir de 78 mil euros antes das devidas personalizações, com o acabamento AMG Line ensaiado a começar nos 81.600 euros.
Texto: Pedro Rodrigues Santos
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