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Demora na ida para o hospital limita opções de tratamento do AVC

Aos primeiros sintomas, devem ser acionados os meios de emergência através do 112.
Por Cláudia Machado 29 de Outubro de 2017 às 08:48
Unidade de AVC do Hospital Garcia de Orta, em Almada, recebe dois a três doentes por dia através da Via Verde
Demora na ida para o hospital limita opções de tratamento
Unidade de AVC do Hospital Garcia de Orta, em Almada, recebe dois a três doentes por dia através da Via Verde
Demora na ida para o hospital limita opções de tratamento
Unidade de AVC do Hospital Garcia de Orta, em Almada, recebe dois a três doentes por dia através da Via Verde
Demora na ida para o hospital limita opções de tratamento
Chamam-lhes os ‘três F’: alteração da face, da força e da fala. Esta é a forma mais simples de decorar os sintomas do Acidente Vascular Cerebral (AVC) e, levantando-se a suspeita, há três números a marcar: 112. Através do número de emergência médica, os doentes são encaminhados para a Via Verde do AVC, criada para agilizar o tratamento destes casos. Cada minuto conta, cada hora sem tratamento pode fixar sequelas irreversíveis.

"Há muito que podemos fazer pelo doente nas primeiras horas desde o início dos sintomas. Mas, se se passarem muitas horas desde a última vez que o doente esteve bem, ficamos muito limitados nas possibilidades de tratamento", alerta Miguel Rodrigues, médico neurologista e coordenador da Unidade de AVC do Hospital Garcia de Orta, em Almada.

Chegado ao hospital por esta via, o doente faz uma Tomografia Computorizada (TAC). Caso tenha condições para avançar para o tratamento, recebe um medicamento injetável.

"Chama-se um trombolítico e vai tentar dissolver o coágulo que está a afetar a artéria, que a está a bloquear", explica Miguel Rodrigues, que recebe "dois a três doentes por dia" através da Via Verde do AVC. Um grupo "ainda mais selecionado" pode ser submetido a um cateterismo.

"Temos de estar empenhados" 
Diana Wong Ramos, de 41 anos, tinha 34 quando sofreu um AVC. "Estava a recuperar de uma cirurgia a uma hérnia  e comecei a sentir dores de cabeça muito fortes, com vómitos. Lembro-me de querer lavar as mãos e não ter força. Felizmente, estava em casa com o meu marido, que ligou para o 112", recorda a jornalista, que se reformou devido às sequelas que lhe retiraram a função da mão esquerda.

A recuperação foi lenta, mas desistir nunca esteve em cima da mesa e a motivação partiu da família, sobretudo dos três filhos. "Temos de estar empenhados em querer recuperar, senão a reabilitação é em vão", diz.

Conselho da Semana 
Há fatores de risco do Acidente Vascular Cerebral (AVC) que podem ser controlados, basta ter força de vontade para mudar alguns hábitos prejudiciais.

O tabaco deve ser cortado da rotina. Há cada vez mais opções para deixar de fumar, incluindo com o apoio de consultas de cessação tabágica. Os maus hábitos alimentares, com excesso de gordura, também devem ser revistos para reduzir o risco de AVC.

"Via Verde foi desenvolvida para não se perder tempo"
"A Via Verde do AVC foi desenvolvida para não se perder tempo. Quando passa demasiado tempo, o doente deixa de poder fazer os tratamentos porque já não vai beneficiar deles durante a recuperação", refere Miguel Rodrigues, médico neurologista e também membro da direção da Sociedade Portuguesa do AVC.

Aos primeiros indícios de que a pessoa está a sofrer um AVC, como apresentar a boca ‘ao lado’ ou perder força nas mãos, deve ser feito o contacto para o 112. "O INEM sabe quais são as unidades que têm a Via Verde, notifica o hospital e nós sabemos que a vítima vai chegar. O transporte é feito por pessoas que estão habituadas a socorrer vítimas. Depois, é tudo muito mais rápido. Se o doente vem pelos próprios meios para as Urgências, tem de dar entrada, passar pela triagem. Perde-se tempo", sublinha o coordenador da Unidade de AVC do Hospital Garcia de Orta, em Almada.

Mais de 60 doentes já foram tratados este ano nesta unidade hospitalar com o medicamento que tem como missão dissolver o coágulo. 

"Problema importante no Alentejo’’
Miguel Rodrigues - Médico especialista em Neurologia 
Há cerca de 30 unidades de AVC no País. São suficientes?
Miguel Rodrigues – Temos áreas da nossa geografia que, infelizmente, não estão cobertas por unidades de AVC. Temos um problema importante no Alentejo. É uma área em que a unidade mais desenvolvida fica em Évora, mas depois as de Beja e Portalegre não estão muito bem servidas. Temos uma área, que na verdade é quase metade do País, onde faltam unidades destas.
– Quais os riscos do atraso no tratamento?
– Cerca de um minuto sem circulação cerebral mata quase dois milhões de células do sistema nervoso.
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